OS PORQUÊS DO CENÁRIO COMPETITIVO DE FIFA SER UM ‘FRACASSO’

Sistema pay to win, marcação automática, bugs e comunidade tóxica são algumas das razões

OS PORQUÊS DO CENÁRIO COMPETITIVO DE FIFA SER UM ‘FRACASSO’

Divulgação/EA

O Ultimate Team tomou conta do Fifa há uns bons anos. A partir do Fifa 17, a Electronic Arts decidiu que o modo seria o carro-chefe da empresa no cenário de esports ao criar o FUT Champions.

Em todo final de semana, os jogadores disputavam 40 partidas da Weekend League em busca de premiações. O número elevado de jogos e manteve no Fifa 18. Após várias reclamações da comunidade, a WL passou a contar com 30 partidas no Fifa 19.

O FUT Champions, na teoria, permite que qualquer um possa se credenciar a jogar campeonatos da EA Sports. Basta se cadastrar sua conta do console e ganhar seus jogos. Todo mundo pode “virar um pro player”.

Mas na prática, o efeito é justamente o contrário. O Fifa anda na contramão de todos os jogos que possuem um cenário competitivo consolidado e que - realmente - oferecem aos jogadores condições de serem profissionais (de ganharem dinheiro para se sustentarem, sem outra profissão). E há vários motivos para o abismo tão grande em relação a LoL, CS:Go e afins para o Fifa.

Fifa é pay to win sim

Quem acha que Fifa não é pay to win deveria prestar mais atenção nos outros jogos competitivos. Em League of Legends, Rainbow Six Siege e outros, os gastos com dinheiro são sempre estéticos. Skins, camuflagens e coisas do tipo.

Qualque dinheiro gasto nesse tipo de jogo não influencia em nada no gameplay. Não há nenhuma vantagem sobre quem não gasta nada. No Fifa é o contrário. Colocar Fifa Points para abrir packs é praticamente uma obrigação para quem quer disputar algum campeonato.

Ou você abre os pacotes e reza para vir algum jogador bom/caro, ou você vai ficar para trás com um time ruim. Quem gasta tem um time melhor. Quem tem um time melhor tem mais chances de vencer. A conta é simples. Há também a arte de fazer trade (comprar cartas abaixo do mercado e vender quando elas valorizarem), mas é algo demorado. Ou investe dinheiro, ou investe tempo. Não há como vencer simplesmente jogando.

Mesmo gastando com Fifa Points, a “vantagem” também não é nenhuma garantia. Os packs são nada mais do que uma loteria disfarçada. Nem todo mundo que compra Fifa Points chega no Mundial, mas todos que chegam no Mundial gastam (muito!) dinheiro em Fifa Points.

O cassino disfarçado

Qual a diferença de uma máquina caça-níquel para os packs do Fifa? A resposta é: nenhuma. Quantas vezes vemos streamers colocando 12k de Fifa Points (que custam mais de R$ 300) e tirando jogadores inúteis no game, como Viviano, Dost, Özil e etc?

Não há qualquer garantia de retorno no investimento. Antes não existia nem as probabilidades do que poderia vir nos packs. Após várias críticas e a adição do sistema de caixas, loots e etc em outros jogos, o Fifa finalmente passou a exibir porcentagens em alguns de seus pacotes no Fifa 19.

Mesmo assim o sistema ainda é nebuloso. É comum surgir a mensagem que as porcentagens estão sendo atualizadas e simplesmente sumirem por algum tempo. Durante o evento Team of the Year, as probabilidades de vir uma carta TOTY era de “menos de 1%”. Informação imprecisa, já que  há um diferença grande entre 0,9% e 0,00001%.

É muito raro tirar algo de bom, mas mesmo assim o jogador se sente obrigado em abrir pacotes. Porque as coins da venda de jogadores ruins farão seu time ser bom para disputar a Weekend League e campeonatos. A roleta gira e se torna um círculo vicioso. Quem não gasta fica para trás e quem gasta não tem garantia de nada.

Jogar Division Rivals para se qualificar para a Weekend League pode ser mais estressante do que a própria WL (Foto: Reprodução/Fifa 19)

O melhor nem sempre ganha

É comum nos eSports que o vencedor tenha jogado melhor. Mas no Fifa não é assim. “Ah, mas no futebol de verdade nem sempre o melhor ganha...”. De acordo, mas a questão é que Fifa não é simulador de futebol. O único modo que “simula” uma partida, realmente, é o ProClubs. Pois no Pro, a premissa básica do 11 de cada lado está presente com cada jogador controlando um boneco.

Agora querer dizer que num jogo onde o jogador controla um único bonecos de cada vez e os outros 10 são pela máquina é uma simulação de futebol, é - no mínimo – muita inocência. O jogo, aliás, está cada vez mais automático e é possível ganhar sem ter habilidade alguma. Algo impensável nos outros jogos de eSports.

Experimente deixar o controle de lado numa partida online de Fifa e veja o absurdo que acontece. A marcação automática é muito mais efetiva. O jogo marca sozinho. É mais difícil fazer gol em um jogador afk (away from keyboard) do que contra alguém que tenta marcar ativamente. Novamente, algo impensável nos outros jogos de eSports.

Ninguém atira sozinho no CS. Ninguém defusa bomba sozinho no R6. Mas no Fifa, zagueiro dá bote sozinho e atacante também chuta sozinho. Tudo para que o jogador casual com um time humilde não tome goleadas de um cara melhor com time caro. Afinal, o grande lucro do Fifa ainda são os players casuais.

Através de “handicap”, “momentum”, “dificuldade dinâmica” (confira - em inglês - a patente da EA sobre isso aqui), ou seja lá o que mais, a EA dá a impressão de querer mascarar a história do pay to win. E a comunidade também tem culpa no cartório quando o assunto é a automaticidade do jogo.

Comunidade tóxica e mimada

Todo game está sujeito a ter problemas em sua comunidade. Afinal, isso nada mais é do que um reflexo da sociedade em geral. Mas no Fifa parece ser um caso ainda mais grave. Enquanto nos outros jogos, os jogadores melhoram o jogo, no Fifa eles pioram.

No lançamento do Fifa 18, a marcação automática quase não existia. Todo mundo teve que aprender na marra como se marcava. Isso tornou bastante comum partidas com uns 10 gols. Se criou um skill gap entre quem aprendeu e quem não aprendeu. Coisa que todos os jogos têm. O que a comunidade fez? Reclamou que no futebol real não existe isso de 6 a 4 toda hora.

A EA prontamente atendeu e lançou uma atualização que transformou o Fifa 18 em um 17.2. Marcação automática pesada de novo, retranca, contra-ataque e todo aquele estresse de uma Weekend League de 40 jogos de volta. Inclusive os bugs de quitar da partida e não tomar derrota, fazer seu adversário tomar disconnect e etc.

Essa história de “permitir que todos sejam pró player” acabou com a diversão do Fifa. Ninguém joga mais por prazer. Ou se joga para vencer e tentar um 30/0 na WL ou se joga por obrigação (de ganhar recompensas) e/ou pagar as contas de casa (no caso de streamers, já que a maioria da maioria da comunidade de Fifa não costuma acompanhar outros jogos).

Jogo novo todo ano

Todo ano tem um Fifa novo. Todo ano o Fifa novo vem cheio de problemas. Todo ano vários problemas não são corrigidos. Os poucos resolvidos demoram uma eternidade para tal. Por que todo ano é a mesma coisa? Porque após lançar o Fifa A, os produtores não querem mais saber dele. Já estão pensando no Fifa B.

Por isso entra ano e sai ano e vários erros toscos continuam presentes. Bug de substituição, formação, glitch no Draft, glitch na Weekend League, kickoff glitch, etc. E os demais problemas que só são vistos a longo prazo. Mas é custoso mexer num jogo lançado e que já deu o lucro. A EA vai querer gastar na produção do próximo jogo. Até porque o tempo é curto e tempo é dinheiro.

O que garantiria atualizações constantes e correção desses erros toscos é a transformação do Fifa em jogo único. Como LoL, CS e etc. Todo ano tem alguma jogada overpowered que deixa o jogo tosco. Geralmente ela é resolvida no próximo game, mas outra acaba surgindo e o Fifa nunca fica balançeado. No Fifa 15 a jogada era LB Y. No 16 era chute no canto do goleiro. No 17 era chute cruzado. No 18 era chute rasteiro. No 19 foi chute colocado de fora da área.

O resultado (além dessa mesmice) é pagar mais de R$ 200 num jogo incompleto e que dura apenas um ano. Depois de 12 meses, tudo o que foi construído não serviu de nada. O jogador é obrigado a gastar mais de R$ 200 de novo para comprar o outro jogo e começar tudo do zero. E claro, colocar mais Fifa Points.

Durante o ano, há vários eventos qualificatórios que dão premiações irrisórias (Foto: Divulgação/EA)

Jogos diferentes? Sim, senhor

Para quem não sabe, o Fifa jogado nos Mundiais que passam na tv e na internet não é o mesmo jogado por você em casa na WL, no Rivals e seletivas. A versão dos camps da EA é menos automática e com menos assistências. A ideia não é ruim em si, o problema é que ela deveria ser colocada em prática já no Ultimate Team.

O UT deveria separar o modo competitivo do casual. Pode até manter essa estrutura de packs e premiações e coisas automáticas, mas deixa isso para os casuais. Cria uma parte competitiva onde todas as assistências estão desligadas e as cartas estão liberadas. Assim o melhor ganha e o pay to win acaba. Mas isso não vende Fifa Points, né...

Além da mentalidade pay to win, o Fifa também está longe de ser um competitivo levado a sério por conta das premiações fracas. A não ser que você esteja no top 10 do Mundial, provavelmente você tomou prejuízo comprando Fifa Points pois a sua premiação vai ser menor do que seu gasto.

O Campeonato Mundial de Fifa 19 (Fifa eWorld Cup) vai dar um total de 400 mil dólares em premiação. O Mundial de League of Legends de 2017 deu 5 milhões de dólares em premiações. Não dá nem para comparar. A impressão que fica é que os Mundiais de Fifa funcionam mais como uma propaganda do jogo do que como uma plataforma de esports.

A falta de concorrência

Um dos grandes motivos do Fifa não mudar todo esse sistema problemático dito aqui é simples: não há concorrência. Com todo o respeito, o Pro Evolution Soccer não chega nem perto. Excluindo até o fator gameplay. O buraco é muito mais embaixo.

PES, ou qualquer outro jogo que tente surgir, não compete com o Fifa por conta das licenças exclusivas. O visual do Fifa é muito bonito. Ter os direitos de Premier League, Bundesliga, LaLiga e etc faz muita diferença. Ainda mais no 19 com a chegada da Uefa Champions League, uma das coisas mais pedidas no modo carreira.

Os direitos de imagem exclusivos que a EA tem torna impensável que algum concorrente surja. É praticamente impossível que alguém tenha caixa para tirar essa licenças da EA Sports. E mesmo se conseguir, ainda terá que produzir um jogo de futebol do zero. O Fifa já tem a base ali há anos.

Enquanto jogos de luta, tiro, MOBA e afins têm que manter qualidade pois existe concorrência, o Fifa pode se acomodar. Não há risco de perder o trono. O mundo ama futebol e a EA tem o único jogo perfeito (no quesito visual) baseado no esporte. Por mais que esteja desgastado, ainda é a única opção viável como game de futebol.

Existe um fio de esperança

Como uma concorrência parece impensável no momento (afinal ninguém jogaria um game de futebol com jogadores genéricos), só há um jeito viável de ocorrer mudanças drásticas no Ultimate Team. Acabar a farra dos packs.

Holanda e Bélgica já se manisfestaram algumas vezes sobre isso. Existe a possibilidade de que esse sistema de pacotes seja considerado jogo de azar por lei. Na Bélgica, aliás, não é mais possível comprar pacotes com Fifa Points. Se isso se confirmar nos próximos anos e mais países aderirem, o UT corre sério risco de morrer.

Ou a EA se prepara para reformular o modo sem packs ou a tal brecha para o PES ou outro jogo pode surgir. Mas se o sistema de packs não for considerado jogo de azar, não há qualquer previsão de mudança. Afinal, a EA fatura muito com isso e vai sugar até a última gota enquanto puder.

O ápice da busca pelo lucro o lançamento dos Prime Icon Moments. Cartas absurdas muito mais caras do que os Prime Icons e que poucos jogadores terão. Mas que muitos vão gastar rios de dinheiro tentando tirá-los. Toda sexta-feira tem algum evento de cartas especiais. Pois o Fifa precisa compensar o fracasso dos jogos recentes da EA. E a venda de Fifa Points compensa qualquer prejuízo de Star Wars, Battlefield e etc.

O cenário competitivo do Fifa é um fracasso - no geral e para quem joga. Mas para a EA,  ele é cada vez mais lucrativo.